texto jeferson barreto
Há tempos, li um texto de Lenin que falava
sobre a juventude comunista da Rússia, aonde ele afirmava
que o papel fundamental da revolução caberia à
juventude, pelo simples fato de os “adultos” já
estarem corrompidos pelo sistema ou acostumados demais com a
sociedade para conseguirem fazer, de fato, uma
transformação na sociedade
atual.
Há alguns meses, participei de uma
experiência nova, pelo menos para mim. Aconteceu entre os
dias 2 e 4 de novembro deste ano, na comunidade de Jurema, no
município de Tavares, sertão da
Paraíba.
Foi um encontro da juventude camponesa como todos
os outros que já participei, mas com um diferencial. A
grande diferença foi o brilho no olhar e as esperança
acesas que existia dentro de cada um dos 170 participantes vindos
de várias comunidades dos arredores da cidade de
Tavares. Eram quatro
municípios ao todo. O que começou a me chamar a
atenção foi o modo que a maioria dos jovens e das
jovens fizeram para chegar ao local do encontro. Vieram de
pau-de-arara. O que eu nunca tinha visto antes, pelo fato de se
tratar de outra região do país, diferente da minha
região. Vinte, trinta jovens amontoados em cima de uma
camionete por todos os espaços possíveis e
inimagináveis, percorrendo no mínimo 18
quilômetros, que era a distância até a
comunidade de Jurema. Esta é uma comunidade marcada por ser
berço de novas organizações, como, por
exemplo, as CEB’s na Paraíba. E agora será pelo
ressurgimento da Pastoral da Juventude Rural – PJR - no mesmo
estado, servindo também como alavanca, incentivo e propulsor
de um trabalho mais conjunto e sistemático no regional, ou
seja, juntando Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e
Alagoas.
Mas, a grande novidade da coisa foi os jovens
camponeses de uma terra tão castigada por uma seca que nunca
se acaba, que vivem no bioma chamado Sertão, não
desistirem e não se entregarem. Apesar das dificuldades,
querem continuar na roça, produzindo e resistindo, mesmo sem
grandes esperanças. Falta-lhes quase tudo, desde água
à uma terra fértil, sem contar que
são invisíveis para os formuladores e executores
de políticas públicas. Estes que tiram a
esperança da maioria da juventude local de materializarem
seus projetos pessoais de autonomia e, dada a pobreza que
historicamente assola a região, são obrigados a se
deslocarem para outros estados do país, em verdadeiras
migrações forçadas, em busca de trabalho e
renda. Mesmo assim, ainda existem jovens que assumem sua
vocação de camponeses, de
profetas.
O encontro foi num fim-de-semana, numa danceteria.
É isso mesmo, uma danceteria em que o dono, acreditando no
objetivo do encontro, emprestou o local. O problema foi que o
espaço era baixo e, combinado com o sol do sertão,
deixava o local um verdadeiro “inferno”,
insuportável de permanecer. Mesmo assim, a juventude ficou
das 8:00 da manhã até as 13:00 horas, pois a conversa
rendeu bons debates. Mas, o calor e a resistência da
juventude em ficar no salão não foram sós no
sábado pela manhã. Não mesmo! Isso foi o
sábado todo e o domingo
também.
Era muito bonito de se ver o pessoal assumindo
tarefas e se esforçando para desempenhá-las. Por
exemplo, o pessoal da mística. Conversávamos sobre o
que pretendíamos fazer e o que precisava, e cada um se
responsabilizava por uma coisa, como escrever uma fala sobre os
jovens, procurar algumas frutas e outras coisas que simbolizavam
nossa vida, nossa luta ou a leitura da Bíblia. Foi divertido
porque fomos atrás de palha de coco, manga (e os pés
de manga eram altos), acerola, mamão e mais um monte de
coisas. Então, começa a cair em nós o
pensamento de que no sertão não se produz nada. Pelo
contrário, conseguimos uma diversidade de produtos da terra
que eu nunca imaginei que encontraria no sertão, mas isso
é bom para ir quebrando alguns pré-conceitos que
temos. Outra tarefa bem cumprida também foi a do
abastecimento de água no salão, que não era
uma tarefa fácil. Afinal, eram mais ou menos uns 8 barris de
20 litros por dia e tinham que ser buscado a uns 100 metros do
local. Foi uma tarefa que o jovem responsável desempenhava
como se estivesse palestrando lá na frente, tamanha era a
convicção de que seu papel também era muito
importante para o bom andamento do curso. Acho eu que, sem ele e as
mulheres da comunidade que se dispôs a cozinhar para o grupo,
o encontro não teria sido bom como
foi.
E, falando na comunidade, outra coisa que marcou
muito a todos os participantes do curso foi a
recepção da comunidade ao encontro, tanto que os
jovens foram distribuídos entre as famílias, ou seja,
cada jovem foi adotado por uma família da comunidade.
Adotado mesmo! Era muito grande o carinho e o zelo das pessoas com
os seus novos “filhos e filhas”. Isso não era
só com os jovens hospedados, toda casa que se passasse em
frente e tivesse alguém na porta já era motivo para
parar, conversa, convite para entrar um pouco e tomar uma
água ou um suco. E assim foi o fim-de-semana
todo.
Por esses motivos e vários outros, as
místicas, momentos marcantes, foram assumidas de fato pelos
jovens responsáveis por ela Foram momentos de muita
fé e animação à caminhada, pois falava
a todos com palavras simples e gestos amorosos com uma simbologia
da roça do jovem da nossa realidade. A
animação do encontro foi outro desafio superado pelos
jovens de forma surpreendente. Conseguimos juntar um violeiro
do Rio Grande do Norte e um baterista de Tavares, que souberam do
encontro na sexta-feira, às cinco da tarde. Quando chegou do
trabalho do dia, logo recebe o convite de ir ajudar na
animação, pois era o único baterista de
cidade. Prontamente, disse que iria ajudar junto à
importante participação das meninas da comunidade,
que eram as cantoras. Cantaram muito bem, por sinal! Após
juntarmos esse povo todo para a animação, que
não foi fácil, ainda tínhamos que
ensiná-los os cantos. Essa foi outra dificuldade, pois tanto
o Paulo como eu não sabemos cantar nada. No entanto, apesar
do ensaio, que começou às 19:00hs da
noite da sexta-feira
e terminou às
2:00hs da madrugada do sábado, no outro dia, às
8:00hs da manhã, eles já estavam emocionando a todos
cantando “Canção da
terra”.
Esses e outros motivos foram fundamentais para que
cada um dos jovens e cada uma das jovens que estavam participando
no encontro saíssem animados e com coragem de assumir o
compromisso de ir para suas comunidades e continuar ou formar um
grupo de jovens da Pastoral da Juventude Rural. Um grupo mais
específico ficou com a responsabilidade e o compromisso de
fazer parte da coordenação estadual da PJR na
Paraíba.
Contudo, nós, os de “fora”,
voltamos com a animação necessária para
começarmos um trabalho de articulação em
nível de Regional Nordeste II da CNBB. Desafio muito grande,
mas que, após tantos exemplos de jovens que se colocaram a
serviço da causa da juventude, é impossível
duvidar que realmente é necessário a cada dia vencer
mais uma etapa em busca de uma sociedade mais justa e digna para a
juventude da roça, em especial. Essa é a
missão da Pastoral da Juventude Rural, ir ao encontro da
juventude camponesa, seja onde ela estiver, e com ela
começar a discutir a realidade e intervir para que o jovem
camponês possa um dia ter condições dignas de
continuar vivendo na terra de seus antepassados, baseado em uma
fé no Deus da vida que nos convoca, como jovens, a sermos
profetas da Esperança.
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